Controle de partículas subvisíveis em injetáveis: 6 critérios analíticos e conformidade com a Farmacopeia Argentina
Análise dos requisitos da Farmacopeia Argentina para partículas subvisíveis em injetáveis, incluindo preparo de amostras, critérios de aceitação, limitações analíticas e aplicações do HIAC 9703+.
Controle de partículas subvisíveis em injetáveis: 6 critérios analíticos e conformidade com a Farmacopeia Argentina
13 out 2026 15 minutos de leitura
Análise dos requisitos da Farmacopeia Argentina para partículas subvisíveis em injetáveis, incluindo preparo de amostras, critérios de aceitação, limitações analíticas e aplicações do HIAC 9703+.
Controle de partículas subvisíveis em injetáveis: critérios analíticos e conformidade com a Farmacopeia Argentina
O controle de partículas subvisíveis em medicamentos injetáveis exige mais do que a
contagem instrumental de partículas em líquidos
. A seleção do procedimento, o preparo das amostras, a adequação do sensor e a interpretação dos resultados devem estar alinhados às especificações farmacopéicas aplicáveis.
Para os laboratórios de controle de qualidade, a aplicação desses requisitos envolve decisões que podem afetar diretamente a confiabilidade dos resultados e a avaliação de conformidade de um lote. Essas atividades também integram o contexto das
Boas Práticas de Fabricação fiscalizadas pela ANMAT
, que abrangem documentação, qualificação de equipamentos e procedimentos de controle de qualidade.
1. Aplicabilidade do capítulo 650: como definir o procedimento para cada preparação?
O capítulo <650> diferencia preparações injetáveis de pequeno e grande volume e descreve condições específicas de execução dos ensaios. A seleção do procedimento exige considerar o volume declarado, a apresentação farmacêutica e a monografia correspondente.
Para o ensaio por bloqueio de luz, o capítulo considera injetáveis de grande volume aqueles com volume declarado igual ou superior a 100 mL. Preparações com volume declarado inferior a 100 mL são classificadas como injetáveis de pequeno volume.
Volume declarado e amostragem
Para injetáveis de pequeno volume contendo menos de 25 mL por unidade, o procedimento por bloqueio de luz prevê a possibilidade de combinar o conteúdo de dez ou mais unidades, de modo a obter volume suficiente para o ensaio.
A necessidade de combinar unidades evidencia uma das dificuldades das análises com volumes reduzidos. Um
estudo sobre redução do volume de amostra por Light Obscuration
, apresentado pela INNOTEC, investigou como diferentes volumes influenciam o desempenho analítico do método.
Para preparações com 25 mL ou mais por unidade, a análise pode ser realizada individualmente. Injetáveis de grande volume devem ser ensaiados em unidades individuais.
O número de unidades analisadas deve permitir uma avaliação estatisticamente válida quando o objetivo for caracterizar um lote. O capítulo recomenda que os planos de amostragem considerem o histórico de contagens, a distribuição de tamanhos e a variabilidade entre unidades.
Formulações e condições particulares
Preparações multidoses, pós estéreis e produtos liofilizados exigem atenção às instruções específicas de preparação e cálculo.
O capítulo também estabelece condições particulares de aplicabilidade e prevê uma isenção para injetáveis cujo rótulo declare que o produto deve ser utilizado com filtração. Essa previsão não deve ser generalizada para outras apresentações.
Antes da execução, é necessário verificar o capítulo geral, a monografia do produto e os requisitos específicos aplicáveis ao medicamento.
2. Preparação de amostras: condições que podem comprometer a contagem
Partículas provenientes de recipientes, materiais de manipulação, água utilizada no ensaio ou do próprio sistema de medição podem interferir na determinação.
Por esse motivo, o capítulo <650> estabelece procedimentos de limpeza e controle das condições analíticas antes da contagem das amostras.
Controle do branco no método por bloqueio de luz
O procedimento descrito na Farmacopeia Argentina utiliza 50 mL de água destilada ou desionizada e filtrada para a verificação do branco.
Após a preparação e desgaseificação, são realizadas três contagens consecutivas, utilizando porções de pelo menos 5 mL. A primeira contagem é desconsiderada.
O capítulo estabelece os seguintes critérios para a amostra combinada de 10 mL correspondente às duas contagens consideradas:
Classe de tamanho
Critério para o branco
Partículas ≥ 10 µm
Não mais de 10 partículas em 10 mL
Partículas ≥ 25 µm
Não mais de 2 partículas em 10 mL
Se esses valores forem excedidos, o capítulo considera as condições inadequadas para o ensaio. A preparação deve ser revista e as verificações repetidas até que as condições sejam apropriadas.
Homogeneização e remoção de bolhas
Para as preparações contempladas no procedimento por bloqueio de luz, a Farmacopeia Argentina descreve a inversão do recipiente vinte vezes para ressuspender as partículas.
A remoção das bolhas pode ser realizada por sonicação durante aproximadamente 30 segundos ou por repouso, conforme as condições descritas no capítulo.
A amostra deve ser manipulada cuidadosamente para evitar a introdução de novas partículas ou bolhas antes da contagem.
Alíquotas e volume efetivamente analisado
O procedimento farmacopéico descrito para bloqueio de luz utiliza pelo menos três alíquotas, cada uma com volume não inferior a 5 mL. A primeira contagem é descartada e os resultados das demais são utilizados nos cálculos.
Em amostras combinadas, o volume total deve ser suficiente para atender às condições de preparação e execução estabelecidas no capítulo.
É importante distinguir o volume mínimo previsto no procedimento farmacopéico da capacidade de um instrumento de trabalhar com volumes menores em outros métodos analíticos.
3. Limites de aceitação para partículas de 10 µm e 25 µm
O capítulo <650> apresenta critérios de aceitação para as classes de partículas com tamanho igual ou superior a 10 µm e igual ou superior a 25 µm.
Os limites variam conforme o método utilizado e a classificação da preparação como injetável de pequeno ou grande volume.
Limites para contagem por bloqueio de luz
A Tabela 1 do capítulo <650> apresenta os seguintes limites máximos:
Preparação
≥ 10 µm
≥ 25 µm
Injetáveis de pequeno volume
6.000 partículas/unidade
600 partículas/unidade
Injetáveis de grande volume
25 partículas/mL
3 partículas/mL
Limites para contagem microscópica
Para o procedimento de contagem microscópica, a Tabela 2 do capítulo estabelece limites diferentes daqueles aplicáveis ao bloqueio de luz.
Preparação
≥ 10 µm
≥ 25 µm
Injetáveis de pequeno volume
3.000 partículas/unidade
300 partículas/unidade
Injetáveis de grande volume
12 partículas/mL
2 partículas/mL
Os valores apresentados correspondem às tabelas oficiais do capítulo <650>, disponibilizadas no portal de legislação da República Argentina.
Os critérios de um método não devem ser aplicados aos resultados obtidos pelo outro. Também é necessário verificar a monografia do produto e eventuais requisitos específicos.
4. Cálculo e expressão dos resultados: onde podem ocorrer erros de interpretação?
Os resultados instrumentais precisam ser convertidos para a unidade exigida pelo procedimento farmacopéico.
Uma contagem obtida em uma alíquota de 5 mL não representa automaticamente a contagem por recipiente ou por mililitro da preparação.
Preparações de pequeno volume
Nas amostras combinadas, o resultado por unidade depende da média das contagens consideradas, do volume total da mistura, do volume de cada alíquota e do número de unidades agrupadas.
Para unidades individuais, o cálculo considera a média das contagens e a relação entre o volume da unidade e o volume efetivamente analisado.
Preparações de grande volume
Para injetáveis de grande volume, a média das contagens é dividida pelo volume da alíquota analisada, obtendo-se o resultado em partículas por mililitro.
Apresentações multidoses
O capítulo estabelece que o resultado deve considerar o volume correspondente à dose máxima declarada no rótulo, seguindo as instruções de cálculo aplicáveis.
O laboratório deve assegurar que os cálculos utilizados no software ou na planilha de resultados reproduzam corretamente as condições do procedimento adotado.
5. Limitações do bloqueio de luz: quando a microscopia deve ser considerada?
O bloqueio de luz é o procedimento inicialmente descrito pelo capítulo <650> para a avaliação das formulações às quais o método se aplica.
Entretanto, determinadas características da amostra podem comprometer a adequação da técnica.
Transparência, viscosidade e características da matriz
O capítulo alerta que produtos sem transparência ou viscosidade semelhantes às da água podem fornecer resultados incorretos quando analisados por bloqueio de luz.
Em determinadas situações, o procedimento microscópico pode ser utilizado. Quando a viscosidade impede a execução adequada, o capítulo também prevê diluição quantitativa com diluente apropriado.
Nesses casos, a diluição deve ser considerada na determinação do resultado final.
Concentração de partículas e limitações do sensor
A seleção do sensor deve considerar seu limite de concentração e sua faixa dinâmica de medição.
O capítulo estabelece que o limite de concentração certificado pelo fabricante deve ser superior à concentração de partículas da amostra analisada.
A presença simultânea de partículas na região de detecção pode provocar coincidência de pulsos e comprometer a contagem. Por isso, operar dentro das condições especificadas para o sensor é necessário para a confiabilidade analítica.
Resultados acima do limite por bloqueio de luz
O capítulo descreve o encaminhamento ao ensaio microscópico quando a formulação não atende às especificações do bloqueio de luz.
O método microscópico envolve a coleta de partículas sobre membrana filtrante e sua avaliação conforme critérios específicos. O procedimento exclui determinados materiais amorfos, semilíquidos ou com aspecto de filme, conforme descrito na Farmacopeia.
Isso significa que os métodos não são analiticamente idênticos e seus resultados não devem ser considerados intercambiáveis.
Um resultado fora da especificação também deve ser tratado de acordo com os procedimentos de investigação de desvios e resultados fora de especificação do sistema da qualidade do laboratório.
6. HIAC 9703+: aplicação instrumental no controle de partículas subvisíveis
O
HIAC 9703+
, da Beckman Coulter, é um sistema de contagem de partículas em líquidos desenvolvido para aplicações farmacêuticas, incluindo a análise de produtos parenterais.
O equipamento utiliza sensores ópticos por bloqueio de luz e pode ser integrado ao software PharmSpec para execução dos ensaios, aquisição de dados e gerenciamento dos resultados.
Seleção de sensores e condições operacionais
O HIAC 9703+ admite diferentes configurações de sensores da família HRLD, com faixas de detecção específicas.
Para o ensaio, a seleção deve considerar as classes de tamanho exigidas, as características da preparação, o limite de concentração do sensor e as condições de operação.
Os sensores e parâmetros utilizados precisam estar adequadamente qualificados e calibrados para a aplicação pretendida.
Procedimentos farmacopéicos suportados
A Beckman Coulter informa suporte do HIAC 9703+ com PharmSpec aos métodos de bloqueio de luz descritos em:
USP <787>:
determinação de partículas subvisíveis em injetáveis proteicos terapêuticos.
Esses recursos são relevantes para laboratórios que trabalham com diferentes compêndios, mas a aplicação do capítulo argentino <650> exige verificar a correspondência dos procedimentos, critérios e cálculos empregados.
Volume reduzido de amostra: capacidade instrumental e exigência farmacopéica
O HIAC 9703+ dispõe de recursos para análise de volumes reduzidos de produto, dependendo da configuração e do procedimento utilizado.
Entretanto, o fato de um equipamento permitir análises com 1 mL não modifica automaticamente o volume previsto no capítulo argentino <650>.
A utilização de volumes menores deve ser avaliada dentro do método específico, considerando sua adequação analítica e os requisitos regulatórios aplicáveis.
Rastreabilidade e integridade dos dados com PharmSpec
O software PharmSpec oferece recursos de controle de acesso, autenticação de usuários, registros de auditoria e armazenamento protegido dos dados.
Segundo a Beckman Coulter, essas funcionalidades auxiliam na implementação de requisitos relacionados à integridade dos dados e à
21 CFR Part 11
.
O software também permite configurar procedimentos de ensaio e rotinas automatizadas de avaliação dos resultados, incluindo recursos de cálculo e classificação de conformidade conforme os módulos utilizados.
A disponibilidade dessas funcionalidades não dispensa a qualificação do sistema computadorizado, a definição de permissões, a validação dos procedimentos e os controles do sistema da qualidade.
7. Documentação analítica: quais evidências sustentam a conformidade do ensaio?
Na rotina de controle de qualidade, a conformidade não depende apenas do resultado final, mas também das evidências que demonstram a execução adequada do método.
Essas evidências devem permitir reconstruir as condições de análise, verificar os cálculos e identificar possíveis desvios.
A tabela a seguir organiza aspectos relevantes para a revisão do procedimento analítico e de seus registros. Trata-se de uma matriz de apoio técnico, não de uma checklist oficial emitida pela ANMAT.
Aspecto
Verificação técnica
Referência normativa
Capítulo, edição, suplementos e monografia aplicáveis.
Plano de amostragem
Número de unidades e justificativa estatística.
Preparação da amostra
Volume, homogeneização, diluições e prevenção de contaminação.
Controle do branco
Resultados e atendimento aos critérios definidos.
Sistema de medição
Sensor, faixa dinâmica, calibração e qualificação.
Resultados
Contagens consideradas, cálculos, unidades e limites aplicados.
Integridade dos dados
Registros originais, rastreabilidade, revisões e controle de alterações.
Desvios
Investigação, justificativas técnicas e documentação das decisões.
O capítulo <650> fornece a base do procedimento de análise, mas a execução em um ambiente farmacêutico regulado também depende dos procedimentos operacionais, das práticas de qualificação e das responsabilidades estabelecidas no sistema da qualidade.
Conclusão: conformidade depende da aplicação correta do método
A determinação de partículas subvisíveis em medicamentos injetáveis exige atenção à aplicabilidade do procedimento, à preparação das amostras, aos limites instrumentais e à expressão dos resultados.
O capítulo <650> da Farmacopeia Argentina fornece critérios específicos para contagem por bloqueio de luz e microscopia. Sua aplicação exige verificar as características da preparação e a adequação do procedimento ao produto analisado.
Sistemas como o HIAC 9703+, da Beckman Coulter, podem integrar essas rotinas de controle de qualidade, oferecendo recursos instrumentais para contagem de partículas em líquidos e ferramentas de gerenciamento dos dados analíticos.