É possível reduzir o volume de amostra na análise de partículas por Light Obscuration?
Um estudo interlaboratorial avaliou a contagem por Light Obscuration em 5, 1 e 0,2 mL, mostrando pouco impacto em 1 mL e viabilidade em 0,2 mL mediante verificação prévia do método.
É possível reduzir o volume de amostra na análise de partículas por Light Obscuration?
25 ago 2026 14 minutos de leitura
Um estudo interlaboratorial avaliou a contagem por Light Obscuration em 5, 1 e 0,2 mL, mostrando pouco impacto em 1 mL e viabilidade em 0,2 mL mediante verificação prévia do método.
Sim. É possível reduzir o volume de amostra no ensaio de partículas insolúveis por
Light Obscuration
de 5 mL para 1 mL sem impacto relevante na reprodutibilidade, e até 0,2 mL com resultados ainda viáveis, porém com maior variabilidade estatística.
Essa é a conclusão central de uma comparação interlaboratorial conduzida por pesquisadores japoneses e publicada na
revista
Biologicals
, que avaliou padrões de poliestireno de 2, 5, 10 e 25 µm em seis laboratórios.
O tema não é apenas técnico. A
Farmacopeia Americana
já havia adotado, em 2014, um capítulo específico para partículas subvisíveis em injeções de proteínas terapêuticas, indicando a possibilidade de reduzir o volume de ensaio de 5 mL para 0,2 mL.
Faltava, porém, uma avaliação multilaboratorial do efeito dessa redução sobre exatidão e precisão. O estudo também serviu como uma das bases para a proposta de um novo teste geral de partículas insolúveis com volume reduzido na
Farmacopeia Japonesa
, colocada em consulta pública em 2017.
Neste artigo, você vai entender:
o que é Light Obscuration e como o método funciona;
por que o volume de 5 mL virou um problema para biofármacos;
como o estudo interlaboratorial foi desenhado;
o que aconteceu com a precisão em 1 mL e em 0,2 mL;
por que o aumento da variabilidade não significa falha do método;
por que as partículas de 25 µm se comportaram pior justamente no maior volume;
quando a configuração do equipamento passa a interferir no resultado;
o que o estudo permite e o que não permite concluir.
O que é Light Obscuration?
Light Obscuration
é uma técnica de
contagem e dimensionamento de partículas
em suspensão baseada na interrupção de um feixe de luz. A amostra passa por uma célula óptica e, quando uma partícula atravessa o feixe, bloqueia parte da luz que chegaria ao detector.
A intensidade dessa redução é correlacionada ao tamanho da partícula. O número de eventos registrados permite estimar a concentração por volume analisado.
Na prática, o método fornece o número de partículas por mililitro, a distribuição por faixas de tamanho e as contagens em limites regulatórios específicos, como ≥10 µm e ≥25 µm.
Por isso, o Light Obscuration é o método prioritário no ensaio de partículas insolúveis em injetáveis, harmonizado entre as farmacopeias americana, europeia e japonesa.
O método tem uma condição de contorno importante: depende da passagem adequada da luz pela amostra. Emulsões, coloides e
preparações lipossomais
podem inviabilizar sua aplicação.
Por que reduzir o volume de amostra no ensaio de partículas insolúveis?
No procedimento farmacopéico tradicional, são exigidas quatro medições com no mínimo 5 mL cada. Esse desenho foi concebido em um cenário de injetáveis de maior volume.
O problema aparece com os produtos biológicos modernos. Injeções de proteínas terapêuticas envasadas em volumes baixos, geralmente abaixo de 1 mL, tornaram-se comuns porque a administração subcutânea pelo próprio paciente é preferida em doenças crônicas.
Segundo os autores, para produtos com quantidade rotulada inferior a 25 mL, pode ser necessário reunir o conteúdo de
dez ou mais recipientes
para atingir o volume exigido pelo ensaio.
Essa combinação traz consequências concretas:
consumo elevado de um produto de alto valor agregado;
aumento do custo do ensaio;
mais manipulação e mais oportunidades de contaminação externa por partículas;
perda da informação sobre a contagem de partículas em cada unidade individual.
Reduzir o volume, portanto, não é economia de amostra. É adequar o ensaio à realidade dos medicamentos que ele precisa controlar.
Como o estudo interlaboratorial foi conduzido?
O trabalho foi estruturado como uma comparação entre laboratórios para avaliar o efeito da redução do volume sobre a exatidão e a precisão da contagem por Light Obscuration.
Em vez de formulações reais, os pesquisadores utilizaram padrões de contagem de poliestireno rastreáveis ao
NIST
, com concentração nominal de 3000 partículas/mL ±10%. Todos os laboratórios trabalharam com os mesmos lotes.
Foram avaliados quatro diâmetros (2, 5, 10 e 25 µm) em três volumes de medição: 5 mL, 1 mL e 0,2 mL. Antes de cada teste, um volume de pré-corrida de 0,2 mL era passado pelo sistema. Cada teste incluía quatro medições, das quais as três últimas entravam no cálculo.
Um dos equipamentos utilizados em dois dos laboratórios foi o
HIAC 9703
,
disponível no catálogo da Innotec. Os instrumentos serviram como plataformas para investigar a pergunta central do trabalho, e não como objeto de comparação entre si.
Contador de partículas HIAC 9703+ para controle de qualidade farmacêutica. Conformidade USP 788, amostras de 1mL, precisão >95%. Solicite orçamento!
Esse desenho define o alcance dos resultados: o estudo avaliou o desempenho analítico do método com padrões controlados, não a validação do procedimento em medicamentos biológicos reais.
O que acontece ao reduzir de 5 mL para 1 mL?
Esse é o resultado mais direto do trabalho. A precisão entre ensaios em 1 mL permaneceu praticamente equivalente à observada em 5 mL, em toda a faixa de 2 a 25 µm.
Os valores de desvio padrão relativo (RSD) entre ensaios foram:
Tamanho
5 mL
1 mL
0,2 mL
2 µm
3,1%
3,8%
4,5%
5 µm
1,6%
1,7%
3,6%
10 µm
1,7%
2,0%
3,3%
25 µm
2,7%
3,1%
4,7%
Para 5 e 10 µm, a diferença entre 5 mL e 1 mL é praticamente irrelevante. Nos demais tamanhos, não houve deterioração acentuada.
Os autores acrescentam uma observação de peso prático: a variabilidade adicional introduzida pelo uso de 1 mL tende a ser
menor
do que a variabilidade entre equipamentos, entre laboratórios e a decorrente da própria manipulação da amostra.
Segundo o estudo, reduzir o volume de 5 mL para 1 mL tem pouco efeito sobre a reprodutibilidade do ensaio, e pode ser feito com os procedimentos de calibração já descritos nas farmacopeias vigentes.
E quando o volume cai para 0,2 mL?
Em 0,2 mL, o quadro muda de natureza. As contagens médias permaneceram dentro da faixa esperada de 3000 partículas/mL ±10%, e o RSD entre ensaios continuou abaixo de 5% para todos os tamanhos. Mas a dispersão aumentou de forma consistente.
O ponto decisivo do estudo é a explicação desse aumento. Ele não foi atribuído a perda de desempenho do equipamento, e sim à estatística de contagem.
Quando partículas estão distribuídas aleatoriamente, a contagem segue a distribuição de Poisson, na qual o desvio padrão equivale à raiz quadrada do número contado. Reduzindo o volume analisado, reduz-se o número absoluto de eventos contados, e a variação relativa cresce por consequência matemática.
Os autores compararam o desvio padrão observado dentro de cada ensaio com o valor previsto por Poisson:
Volume
Previsto por Poisson
Observado (2 / 5 / 10 / 25 µm)
5 mL
24
35 / 38 / 27 / 192
1 mL
55
47 / 62 / 71 / 71
0,2 mL
122
116 / 127 / 126 / 140
Com exceção das partículas de 25 µm em 5 mL, os valores medidos acompanham de perto o previsto.
A maior dispersão em 0,2 mL é o comportamento estatístico esperado de contar menos partículas, não um sinal de que o método deixou de funcionar.
Isso não elimina a necessidade de cautela. Significa apenas que o resultado em volumes muito baixos precisa ser interpretado com essa dispersão em mente.
Por que as partículas de 25 µm exigiram atenção especial?
Aqui está o achado mais contraintuitivo do trabalho, e o que costuma ser invertido em leituras apressadas.
A variabilidade
dentro do ensaio
para partículas de 25 µm disparou justamente no maior volume. Em 5 mL, o desvio padrão das três medições chegou a 192, contra 71 em 1 mL e 140 em 0,2 mL. Além disso, a contagem da quarta fração vinha sistematicamente mais baixa que a da segunda e da terceira.
A explicação apontada pelos autores é a sedimentação. Aplicando a Lei de Stokes, uma partícula esférica de poliestireno de 25 µm com densidade de aproximadamente 1,05 g/cm³ sedimenta em água a cerca de 1 mm/s.
Parece pouco. Mas uma análise em 5 mL leva mais tempo do que uma análise em 1 mL. Quanto mais tempo transcorre após a homogeneização, mais partículas grandes deixam a região de amostragem.
Fatores que amplificam o efeito incluem:
tempo decorrido desde a agitação;
posição do tubo de amostragem no frasco;
volume disponível no recipiente;
duração total da sequência de medições.
Volume maior não é automaticamente mais seguro. Para partículas grandes, o ensaio mais longo pode ser justamente o mais suscetível à sedimentação.
A recomendação dos autores é analisar partículas dessa dimensão imediatamente após a homogeneização, ou com agitação durante a medição.
Quando a configuração do equipamento passa a influenciar o resultado?
Reduzir o volume não é alterar um parâmetro e repetir o mesmo procedimento. Com 0,2 mL, características físicas do sistema representam uma fração muito maior do volume total analisado.
Entram na conta o percurso da amostra, o volume morto, a exatidão do volume aspirado, a geometria interna e a configuração instrumental adotada.
O estudo trouxe um exemplo concreto. Dois laboratórios utilizavam o KL-04A equipado com
compressing chamber
. Na análise de partículas de 25 µm em 0,2 mL, a contagem caiu de forma acentuada. Os autores atribuíram o efeito ao percurso intermediário mais longo imposto por essa configuração — um laboratório removeu a câmara, o outro remediu sem ela, e os dados obtidos com a câmara foram excluídos da avaliação correspondente.
É desse episódio que nasce a principal ressalva do trabalho: abaixo de 1 mL, o desempenho do procedimento precisa ser verificado previamente em cada laboratório.
Entre os controles mencionados estão a exatidão do volume de amostra, a exatidão da contagem dentro da faixa especificada pela farmacopeia e a consistência entre as três medições utilizadas no ensaio.
O método funciona para partículas abaixo de 10 µm?
Dentro das condições avaliadas, sim. Os ensaios farmacopéicos tradicionais concentram atenção em ≥10 µm e ≥25 µm, limites definidos considerando o risco de oclusão capilar. O estudo ampliou a avaliação para padrões de 2 e 5 µm.
Os resultados levaram os autores a concluir que o Light Obscuration é viável para o monitoramento de partículas a partir de 2 µm.
Esse ponto tem contexto regulatório. Produtos proteicos podem conter, além de partículas externas e oriundas do processo produtivo, agregados da própria proteína ou complexos com outros componentes da formulação. Orientações regulatórias para avaliação de imunogenicidade recomendam o acompanhamento tanto da faixa ≥10 µm quanto da faixa de 2 a 10 µm ao longo do ciclo de vida do produto, sem indicar métodos específicos para as partículas menores.
Vale separar o que é justificativa do que é resultado experimental. O estudo não avaliou imunogenicidade nem demonstrou relação entre partículas de 2 a 10 µm e eventos adversos. Essa discussão aparece como motivação para ampliar a faixa monitorada.
O que o estudo permite concluir
Os achados podem ser resumidos de forma objetiva:
5 mL
- condição de referência da comparação.
1 mL
- precisão equivalente à de 5 mL; pouco efeito sobre a reprodutibilidade, com os procedimentos de calibração farmacopéicos atuais.
0,2 mL
- resultados viáveis, RSD entre ensaios abaixo de 5%, com dispersão compatível com a estatística de Poisson e maior sensibilidade à configuração instrumental.
Abaixo de 1 mL
- o desempenho precisa ser verificado previamente por cada laboratório.
Faixa avaliada
- 2, 5, 10 e 25 µm, com padrões de poliestireno rastreáveis ao NIST.
Igualmente importante é o que o trabalho não sustenta. Ele utilizou padrões de contagem, e não medicamentos reais; não validou 0,2 mL para qualquer formulação; não comparou o desempenho entre as plataformas instrumentais utilizadas; e não avaliou imunogenicidade de agregados.
Seria incorreto ler o estudo como “0,2 mL é suficiente para analisar qualquer biofármaco por Light Obscuration”. A contribuição real é outra: o volume de 5 mL não representa um limite técnico absoluto, e a redução é viável desde que o sistema de medição seja compreendido e verificado.
Para laboratórios que trabalham com produtos de baixo volume e alto valor, a consequência prática é direta: menos amostra consumida, menos frascos combinados, preservação da informação por unidade individual e menos etapas de manipulação, que são, elas próprias, fontes de contaminação particulada.
Onde encontrar contadores de partículas
A Innotec representa na América Latina linhas de equipamentos para análise de sistemas particulados e bioprocessos, incluindo o
HIAC 9703+
, contador e analisador de partículas em líquidos da Beckman Coulter, a mesma linhagem instrumental utilizada como plataforma no estudo interlaboratorial discutido neste artigo.
Para controle de partículas subvisíveis em injetáveis, o catálogo permite filtrar equipamentos diretamente pelas normas de referência, como
USP <787>
,
USP <788>
e
EP 2.9.19
.
Perguntas frequentes sobre Light Obscuration com volume reduzido
O que é o método Light Obscuration?
É uma técnica de contagem e dimensionamento de partículas em suspensão baseada na obstrução de um feixe de luz por partículas que atravessam uma célula óptica. A queda de intensidade luminosa é correlacionada ao tamanho da partícula.
Qual o volume mínimo de amostra em Light Obscuration segundo o estudo?
O estudo avaliou até 0,2 mL por medição e considerou os resultados viáveis nesse volume, com RSD entre ensaios abaixo de 5%. Para volumes inferiores a 1 mL, os autores recomendam verificação prévia do desempenho em cada laboratório.
Reduzir de 5 mL para 1 mL prejudica a reprodutibilidade?
Nos dados apresentados, não de forma relevante. A precisão entre ensaios permaneceu em níveis semelhantes em toda a faixa de 2 a 25 µm.
Por que a variabilidade aumenta em volumes menores?
Porque menos volume significa menos partículas contadas. Como a contagem segue a estatística de Poisson, a variação relativa cresce à medida que o número absoluto de eventos diminui.
Por que as partículas de 25 µm foram problemáticas?
Por sedimentação. Com velocidade de sedimentação da ordem de 1 mm/s, análises mais longas favorecem a queda das contagens ao longo das medições. O efeito foi mais evidente no volume de 5 mL.
O Light Obscuration serve para partículas abaixo de 10 µm?
O estudo indicou viabilidade para monitoramento de partículas a partir de 2 µm nas condições avaliadas, embora os limites farmacopéicos tradicionais se concentrem em ≥10 µm e ≥25 µm.
Quais equipamentos foram usados na comparação interlaboratorial?
Contadores de partículas por Light Obscuration KL-04A, da Rion, em quatro laboratórios, e HIAC 9703 em dois. Os instrumentos foram plataformas do estudo, sem comparação de desempenho entre eles.
O estudo substitui a validação do método para um produto específico?
Não. Os próprios autores afirmam que o desempenho de métodos com volume reduzido deve ser verificado para cada produto.
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